FILHOS DE GANDHI: 70
ANOS DE FOLIA
Já sem o brilho e a espontaneidade de
outros anos, o carnaval está pós-moderno sem mesmo saber se algum dia foi
moderno e ainda produz celebrações. Divagações à parte, em 2019 um ponto que
certamente marca a folia é o 70º aniversário do Afoxé Filhos de Gandhi. Com
isso, creio que seja importante tirar de baixo do tapete o livro do jornalista
Anísio Félix, Filhos de Gandhi, a história de um afoxé, publicação esgotada que
muito deveria estar com uma nova edição entre nós. Com a dinâmica do jornalismo
e partindo da oralidade, Anísio garantiu a nossa memória ao registrar como
fonte primária a fala dos fundadores do bloco.
Sempre disposto a não perder tempo,
foi atrás dos estivadores do porto para recolher seus depoimentos sobre a
criação de um dos principais afoxés de Salvador e como foi à rua pela primeira
vez no carnaval de 1949. Até hoje desfilam como ancestrais nesse registro Vavá
Madeira, Antonio de Emiliano, Aloísio Gaiolão, Panguara, Mica, Zoião, Pedro de
Oiá, Dudu, Quadrado, Guarda Sol, entre outros que formaram o grupo dos
cinquenta primeiros integrantes. Esse livro/documento ainda parece passar longe
dos holofotes e vitrines da tecnologia como suporte da história da cidade, do
carnaval e dos homens da estiva que criaram o Filhos de Gandhi.
capa do livro
Anísio Félix deixou saudades entre os
colegas da imprensa e pesquisadores da cultura popular de Salvador.
Profissional de reconhecida competência, atuante em vários jornais, interessado
pelas coisas da terra, autor de outros livros também esgotados, vivia as
nuances do cotidiano, conhecia o carnaval de Salvador como poucos. E no seu
dinamismo, ainda teve tempo de ser sócio e desfilar no Filhos de Gandhi durante
os dias de folia enquanto vida teve.
Anísio Félix era sinônimo de Bahia e
cultura popular. Quem conviveu com ele sabe disso. O lançamento do livro Filhos
de Gandhi foi num fim de tarde, em 1987, no vão livre da prefeitura (praça
municipal), com grande concorrência de leitores, que marcou para sempre a
história da fundação do afoxé. Não temos notícia de outra publicação sobre o
bloco ao longo dessas décadas. O pequeno volume é recheado de histórias,
curiosidades e etnografias, num período em que se dava o grande movimento
comercial de Salvador através do porto.
Noticiários de vários veículos
cometam uma serie de equívocos ao abordar e comentar a trajetória do Afoxé
Filhos de Gandhi. Os colegas narradores, talvez se lessem o livro de Anísio
Félix não fizessem observações precipitadas em exibições televisivas. A
importância do livro está no mérito de enriquecer qualquer discussão, notícia
ou mesa de debates a respeito da trajetória inicial do bloco carnavalesco. Eis
que jornalistas, pesquisadores em geral interessados em formatar o carnaval de
Salvador, deveriam ter atenção com os verdadeiros aspectos de sua construção.
MR
Fev/19
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