FILOSOFIA  AFRICANA

    Aproveito o aniversário de publicação desse texto para postar aqui e registrar na memória do nosso tempo. Essa reflexão sobre a defesa da dissertação de mestrado de Adilbênia Machado, na Faculdade de Educação da UFBA, foi publicada no jornal A Tarde em 19/1/2015. 



FILOSOFIA AFRICANA COMO AÇÃO AFIRMATIVA

Num período em que se reflete a passagem do aniversário da Revolta dos Malês, várias são as iniciativas de reparação nos estudos etnológicos no Brasil. Uma iniciativa oficial tardia tornou obrigatório o ensino da história e da cultura africana e afro-brasileira em todos os níveis do ensino básico, através da lei 10.639. Iniciativa antes já praticada espontaneamente por alguns professores de forma isolada e que serviu de base para a sua elaboração.

Os estudos etnológicos se propõem a reparar a ausência do protagonismo africano no seio da sociedade brasileira ao longo do seu processo histórico, nas diversas vertentes do conhecimento. Ao longo dos últimos 50 anos, os estudos e publicações têm sido enfáticos nas linhas da cultura religiosa, do lazer e da educação, de acordo com a produção das ciências humanas e sociais.

Enquanto a lei não é cumprida de modo satisfatório, inclusive na rede particular de ensino, uma enxurrada de trabalhos acadêmicos é produzida sobre a importância dos valores africanos na cultura formadora da diáspora. Por enquanto, a filosofia africana ainda está fora dos debates e pesquisas mais correntes. Nesse viés, a filósofa e pesquisadora Adilbenia Freire Machado defendeu a dissertação de mestrado “Ancestralidade e encantamento como inspirações formativas: filosofia africana mediando a história e cultura africana e afro-brasileira” pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal da Bahia. 

Adilbenia ultrapassa os limites da lei, com uma temática pouco alusiva no âmbito epistemológico, visando colocar na ordem do dia o conhecimento filosófico africano como mediador cultural da nossa contemporaneidade. A pesquisa realizada veio do desejo de contribuir com o fortalecimento dos nossos processos de identificação através das culturas e civilizações africanas, segundo a autora. E tal reconhecimento não exclui ou nega as nossas heranças indígena e europeia.

Percebe-se que o pensamento africano e afro-brasileiro passa despercebido em vários campos do conhecimento, num tremendo silêncio do meio acadêmico sobre a produção filosófica ou literária e sua respectiva difusão entre nós. Logo, a pesquisadora traz a perspectiva de romper com esse silenciamento. A pretensão é “oferecer subsídios para o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira e para as relações etnicorraciais, refletindo como a filosofia africana pode realizar essa mediação”. A banca examinadora elogiou o trabalho pela originalidade de uma ação afirmativa para a educação nessa vertente.

A pesquisa parece ter cumprido o objetivo de reconhecer a ancestralidade africana da pesquisadora que encanta e potencializa o seu estar no mundo. A mestre alerta que é do encantamento, dessas atitudes frente à vida, que nasce a Filosofia Africana, uma filosofia tradicional que traz novidades, já que aprender com os antigos é sempre uma sabedoria atualizada. O texto traz, então, a ancestralidade e o encantamento como inspirações formativas da filosofia africana na mediação da história e cultura africana e afro-brasileira, a ser aplicada na nossa rede escolar, conforme dita a lei 10.639, alterada pela lei 11.645.

 

 

 

 


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