100 ANOS DE PIER PAOLO PASOLINI



Importante lembrar e celebrar a passagem do centenário do intelectual mais controverso no século XX, provavelmente o maior poeta da Itália contemporânea, cujo discurso segue presente causando inquietações. Dia 5 de março de 1922 nasceu Pier Paolo Pasolini, um homem de mil e uma idéias.

Poeta, romancista, ensaísta, cineasta, dramaturgo, ator, pintor, Pasolini era ligado aos problemas sociais e políticos do seu tempo. Logo nos primeiros anos da adolescência enfrentou o peso do fascismo de Mussolini. Desde cedo já contestava aspectos considerados inquestionáveis até então. Filho de militar fascista e de uma professora primaria, nunca teve boa relação com o pai, situação que se agravou com a queda do regime de Mussolini, quando as divergências entre os dois assumiram conotações políticas.

Sua inclinação para a pintura se manifestou precoce. Com a idade de quatro anos enchia os cadernos de desenhos. A poesia veio depois, decorrente da dedicação pela palavra escrita e com os primeiros versos aos sete anos. A adolescência serviu para Pasolini descobrir sua vocação artística e intelectual e a sexualidade. Entre a adolescência e a juventude, aumentou sua produção de versos, e descobre em 1937 o poeta francês Rimbaud.


Primeiro livro

     Em 1942, Pasolini publicou seu primeiro livro Poesias em Casarsa, produção independente, com versos em dialeto friulano. Estudante de Letras, recebia a influência dos escritores herméticos que lera naqueles últimos cinco anos, quando a dimensão cultural do tempo ainda era a do fascismo. No livro, ele fala do amor de romance, do mito, da felicidade e da poesia em homenagem a Casarsa.

Pasolini escreveu mais poesias e se constituía na mais nova promessa da literatura italiana entre os anos de 1943 e 1949. Em sua intensa produção, publicou em 1954 A melhor juventude (La meglio gioventù), também em dialeto friulano com temáticas épico-sociais. São versos que discutiam a realidade em curso e de algum modo pareciam responder às suas exigências poéticas.

Até então o que havia de Pasolini era somente poesia. Em 1955, o primeiro romance Rapazes da vida (Ragazzi di vita), gerou a maior polêmica literária daquele ano na Itália e lhe valeu um processo criminal sob acusação de pornografia. Ragazzi di vita obteve grande sucesso e provoca inquietação até os dias atuais. As perseguições judiciárias só terminaram após sua morte.

Primeiro prêmio

Pasolini explora a poesia popular e lança O Cancioneiro italiano (Il Canzoniere italiano) em dialeto romano. Em 1957, o poeta publicou As cinzas de Gramsci (Le Ceneri di Gramsci), traçando um novo caminho para a poesia de caráter civil, até se consolidar como grande poeta italiano ganhador do Prêmio Viareggio.

O ano de 1958 não passou sem marcas na vida de Pasolini. Ao publicar O rouxinol da igreja católica, recebeu a notícia da morte do pai Carlo Alberto. Foi uma morte sentida, mesmo sem ter uma relação familiar afetiva mais forte. O segundo grande fato literário é o romance Uma vida violenta, também com muito sucesso. O cenário é ainda a periferia das borgatas romanas, porém de forma mais compacta e dramática em relação a Rapazes da vida, expõe de forma mais nítida a miséria física e moral por meio de uma linguagem seca.

Pasolini foi de tudo um pouco: polêmico, premiado, denunciado, processado, condenado e por ultimo massacrado até a morte. Ele não causou escândalos somente com os dois primeiros romances, e passa a ser conhecido internacionalmente, traduzido para onde idiomas.

                                                        Primeiro filme

Os escândalos continuam. Pasolini roda seu primeiro filme Accatone, em 1961, a maior polêmica da XXII Mostra de Veneza. Era um período marcado pela repressão dos rastos do fascismo e do vigor da democracia cristã. O filme expõe a segregação subproletaria, a realidade marginal e a violência policial. Pasolini conhecia bem a periferia romana. Por esse filme, foi perseguido até a morte.

Para ele, a década de 1960 foi marcada mais pelo cinema, apesar de continuar a escrever poesia e peças para teatro. Se Accatone foi mal recebido pelos críticos, pelos burgueses e até pelos comunistas, e considerado como obsceno e contrário aos bons costumes, Pasolini como cineasta se tornou uma personalidade curiosa a partir dos filmes que rodou em seguida.



Assim, ele retoma o sagrado e surpreende em 1964 com O Evangelho segundo são Mateus, considerado a mais pura versão sobre Cristo.  Também faz leituras sobre a civilização antiga com Edipo Rei e Media, e para um novo choque dos conservadores, junta o sagrado ao subproletariado em A terra vista da lua e Teorema.

                                                           Premiado em Berlim

O homem da câmera mostra sua preocupação com o dilema do conformismo e da contestação política, em busca da recuperação dimensional da moral do corpo. Com isso, foi premiado no Festival de Berlim com Decameron, o primeiro da trilogia da vida, rodado em 1971. A exposição de corpos nus não poderia deixar de gerar polemica e os críticos do festival o acusaram de imoral e vulgar.

Nessa linha de busca pela libertação pessoal, Pasolini oferece como elemento de leitura nos filmes a quebra de tabu, apesar da incompreensão e da inquietude da geração mais jovem. Também coloca a poesia e apresenta suas dúvidas sobre a inocência do subproleteriado no mundo.

Sua expressiva consciência política ainda faz reverberar um pensamento vivo que ainda  inquieta os mais tradicionais setores sociais. As crônicas periódicas nos jornais Paese Sera, Il Manifesto, Tempo e Mondo na virada para os anos de 1970, o tornaram uma voz de combate ao caos político, à anarquia do poder, à degradação humana e à subalternidade.



A partir de 1973, publica no jornal Corriere della Sera, com ampla disputa do público por suas discussões em torno de fatos sociais, políticos e culturais. O conjunto dessa produção, reunido nos volumes Escritos Corsários (1975) e Cartas Luteranas (1976), constitui um legado de estética agressiva e envolvente que arrebata a atenção do leitor, tendo em vista o traço contestador e anticonformista de sua narrativa. Apesar da forte veia crítica, fica evidente o sinal de desilusão. Uma série de eventos e publicações sobre Pasolini demarca essa passagem do seu centenário na Itália. Nada mais justo. 

 MR

Março/2022   

 

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