SOTERÓPOLIS
QUATROCENTONA
Passados 470 anos, a
cidade do Salvador possui uma ancestralidade marítima. Sua população nativa foi
exterminada e os primeiros desbravadores aqui chegaram pelo mar. A intensa
movimentação de entra, sai, acomoda, violenta, mata etc, esboça apenas o interesse
de construção e exploração de mão única.
A cidade portuária faz
aniversário, feliz na ótica de alguns. Hoje moderna, letárgica, mística,
festiva, escavada, violentada, lavada pela chuva e pelo sangue de seus filhos. Ainda porta de entrada e saída de mercadorias,
excludente. Primeira capital do país, cidade mais negra fora da África, dizem
que tem o povo mais hospitaleiro, terra da felicidade. Pra que servem esses
títulos?
Sua criação motivou cobiça, desprezo, ocupação de variada ordem. Quem mais trabalhou pelo seu crescimento foi mantido na via marginal da história. Uma história de diáspora em rede, cujo interesse maior era garantir o privilégio do regime escravista. As elites rompem, tanto ontem como hoje, e tudo segue como estava, com poucas mudanças, inclusive o nome do regime.
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Uma vida de 470 anos. Desde o inicio muito choque cultural, invasões, tráfico de pessoas, roubos, castigos e execuções. As paisagens atraem forasteiros, viajantes, profissionais, olhares contemplativos sobre a resistência dessa gente. Sim é Salvador, cidade quatrocentona malemolente, construída aos moldes lusitanos, vivida aos moldes crioulos da africanidade.
Salvador está em festa,
está de parabéns. Uma festa para todos
que ajudaram no seu crescimento desde a via atlântica. Todos que merecem fazer
parte da história sincera da cidade. Como seria essa história sem
ancestralidade africana nem indígena? Nomes e feitos do dominador pouco
importam se a população crioula não estiver na mídia e nos livros didáticos
dignamente. Afinal 470 anos de que mesmo, se a população crioula não elege um
representante para governar?
MR
Março/19

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