FRONTEIRAS DO DISCURSO AFRO-BRASILEIRO
Num momento em que a modernidade rompe mais rapidamente as fronteiras da cultura e os debates acadêmicos parecem ganhar novos contornos, poucos estudos etnográficos apresentam o caráter provocativo que a pesquisadora Lisa Earl Castillo traz no seu trabalho. O livro de caráter multidisciplinar, sob a perspectiva antropológica, histórica e linguística, é fruto da pesquisa realizada para o curso de doutorado em Letras pela Universidade Federal da Bahia. Um trabalho denso e de grande fôlego, cuja narrativa discute aspectos de entrelaçamento de linguagens no candomblé em Salvador.
Radicada no Brasil desde a década de 1990, Lisa Castillo integra a nova geração de estudiosos da religiosidade afro-brasileira com significativa contribuição nesse campo. No intuito de revelar o dilema da expressividade linguística desse universo preservado até os dias atuais, logo na introdução, a autora assegura ter a escrita um lugar próprio nos terreiros. Portanto, a pesquisa parece ter a intenção de ampliar a relação de estreitamento entre essas duas formas de comunicação, apesar das situações conflituosas e das posturas de resistência.
Segundo faz questão de lembrar, a origem do estudo se dá a partir de um olhar estrangeiro e entre as curiosidades iniciais percebe a limitação dos debates acadêmicos em torno da reafricanização do candomblé e o nagocentrismo. Como até então era grande a ênfase sobre a exclusividade da tradição oral, o ponto de partida do trabalho foi refletir sobre a percepção dos terreiros diante da produção de textos inerentes aos mesmos. Não se tem ainda notícia de algum trabalho semelhante com abordagem sobre o valor do registro textual relacionado à oralidade e à imagem num espaço sagrado afro-brasileiro. O livro, pleno de curiosidades, leva o leitor a acompanhar as várias instâncias da investigação. Após apresentar os pioneiros nos estudos da base filosófica do candomblé, a pesquisadora já adianta que a comunidade de terreiro desconfia da escrita como via de aprendizado religioso.
De início, a pesquisadora salienta o caráter conflituoso entre as duas formas de linguagem. Porém, ao longo de um rigoroso trabalho de campo, fica sugerida a busca incessante em mostrar a relação complementar existente entre a oralidade e a escrita, ao invés de uma oposição como fica configurado em várias passagens. Segundo o relato da pesquisa (p. 25), a tradição oral aparecia de forma sutil nos estudos dos primeiros pesquisadores, isto é, sua revelação mais explícita se deu de maneira tardia. Logo, no meio acadêmico, parece ter ficado fora dos debates e dos estudos contemporâneos, seja através da antropologia, dos estudos étnicos ou dos estudos culturais. Lisa Castillo chega como uma exceção pela iniciativa de realizar um trabalho de campo substancioso e traduzir num texto fluente essa dicotomia existente nos terreiros de manter em segredo a transmissão oral do saber sob o risco de perder o seu tradicional espaço. Portanto faz-se necessário tal debate, através do discurso etnográfico.
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| capa do livro |
O trabalho revela sua extensão ao campo da fotografia, até então elemento de memória com lugar de destaque. O uso de texto e fotografia sempre teve uma função mais restrita nos terreiros de candomblé e é clara a situação de incógnita para quem é estranho de ter permissão ou não para fazer o registro de imagens. Assim, é possível afirmar que a fotografia como documento se constitui uma zona de fronteira entre a escrita e a oralidade ou uma extensão da ordem do discurso apresentado ao longo do trabalho.
Os questionamentos e o cruzamento de informações revelam impressões de curiosidade, um pouco de suspense, leitura crítica, confirmações, contradições e mesmo contra-argumentações. São aspectos que compõem um discurso de estilo singular sobre as observações realizadas, despertam o interesse e conseguem prender a atenção do leitor sobre os dados e informações levantadas. Inclusive, alguns fatos mantidos como verdadeiros ao longo do tempo entre as comunidades de terreiro, são retificados a partir da pesquisa ou podem ficar como pista para reflexão.
Tudo isso marca a importância e originalidade do trabalho pelos dados interessantes apresentados junto a personalidades de uma geração mais jovem que assumem o legado do candomblé e manifestam suas opiniões a respeito do tema pesquisado. Nomes de terreiros famosos e menos conhecidos constituem um mosaico na construção etnográfica que aponta caminhos para possíveis futuros estudos.
A pesquisa de Lisa Castillo cumpre sua missão e atinge o objetivo de demonstrar a existência concomitante de uma produção escrita e um saber gerado a partir da transmissão oral. Ao retomar a primeira menção feita por sua conterrânea Ruth Landes (no livro A cidade das mulheres), entre as curiosidades analisa o caderno de fundamento, uma prática de registro comum nos terreiros mantida em segredo absoluto e de acesso restrito a poucos. O trabalho sugere que a publicação de alguns livros se deu a partir desse tipo de material escrito, o que pode ajudar na confirmação de sua hipótese da existência simultânea das linguagens.
A relação dos terreiros com a etnografia vem desde Nina Rodrigues no fim de século XIX, quando vigorava a marca conceitual do evolucionismo nas ciências humanas, segundo constata a própria autora. O trabalho aborda o interesse dos primeiros pesquisadores em fazer etnografia nos terreiros, sendo poucos colocados em destaque através do discurso legitimador de um grupo intelectual direcionado por alguma ordem de interesse. Assim, em vários níveis se deu a inserção do candomblé no mundo da escrita. Os terreiros se tornaram lugar de pesquisa e foram ganhando alguma visibilidade a partir da notoriedade de suas lideranças, por sua vez, objeto de atenção de novos pesquisadores, muitos estrangeiros, como também de outros representantes e lideranças religiosas afro-brasileiras, nos diversos formatos.
Entre os pontos de relevância da pesquisa está a voz de entrevistados que atende ao senso de credibilidade do trabalho na difusão de uma informação mais autêntica. A polêmica de como o povo de santo se relaciona com a escrita e a com a transmissão do saber oral atrai uma discussão antes adormecida ou nunca provocada em qualquer debate sobre questões linguísticas. A análise discursiva aponta que mediante as respostas dos entrevistados, as inquietações sobre produção textual religiosa e etnográfica são amenizadas quando o material publicado advém da linhagem de um dos terreiros considerados tradicionais ou tem a respectiva influência reconhecida.
Por último, com o avanço da globalização e aperfeiçoamento das tecnologias, a pesquisa de Lisa Castillo revela o pioneirismo de alguns terreiros e seus adeptos em publicar livros e criar páginas na internet ao tempo em que constata a baixa produção e receptividade de textos sobre candomblé escritos por religiosos baianos. A densa discussão deixa perceber que a etnografia não simboliza o saber religioso adquirido no espaço dos terreiros. Ao que parece, serviu até o momento para tornar aceitável e respeitável a imagem social do candomblé. Também não se constitui único caminho de acesso ao conhecimento religioso, no mais das vezes, de acordo com o que demonstra o estudo, um suporte de reparação dos registros históricos para uma possível compreensão mais ampla da sociedade.
A renovação do debate contemporâneo se dá com trabalhos relevantes como o de Lisa Castillo, em favor do caráter sempre movediço da cultura que ganha nova face mediante a dinâmica dos fatos ao longo do tempo. A pesquisa segue um critério ético e objetivo de não penetrar em maiores fundamentos litúrgicos e se propõe a discutir as estratégias de guardar a memória além da oralidade, contrariando ao que de hábito se crê.
Trata-se de um trabalho oportuno que procura elucidar aspectos ainda não discutidos e pouco comentados no âmbito da religiosidade afro-brasileira, inclusive pelos adeptos. O livro é uma importante contribuição por trazer à luz do debate uma temática de grande interesse e também pelo incentivo a outras reflexões e a novos estudos sobre as influências africanas na cultura baiana.
Salvador, junho/2014
Obs.: Esta resenha foi escrita para uma revista acadêmica cuja edição jamais foi publicada.

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