O OLHAR ANGOLANO SOBRE O COMÉRCIO DE RUA DE SALVADOR

 

O comércio de rua sempre fez parte do cenário da cidade e representa um aspecto marcante desde o período colonial. Impossível ignorar a presença de africanos e crioulos, na viabilidade urbana pela força de trabalho e em suas dimensões socioculturais, cujas influências sobre hábitos e símbolos locais são evidentes.

Esse cotidiano, sob o olhar da contemporaneidade, é o que nos apresenta o Doutor Orlando Almeida dos Santos, na sua tese Dos Cantos aos Camelódromos: Comércio de rua e territorialidade negra no Centro Antigo de Salvador, defendida no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia.

O autor situa os contextos históricos nos quais se desenvolveram as atividades comerciais na linha da informalidade. Nascido e criado em Luanda, habituado ao cotidiano das feiras e dos mercados populares, não só frequentou como vendeu pequenas iguarias feitas por sua mãe, pra ajudar na renda familiar.

Mas, a ideia de pesquisar o comércio de rua e trajetórias de vida de comerciantes veio da graduação em Sociologia, na Universidade Agostinho Neto, em Angola, onde apresentou uma monografia sobre as zungueiras, mulheres vendedoras ambulantes.

O trabalho de Orlando Santos é uma radiografia do comercio informal no Centro Histórico de Salvador sob a mira do controle do poder público. Segundo o marco conceitual da época, os ambulantes foram, repetidamente, acusados de enfear a cidade ou ter hábitos considerados incivilizados, contra o advento da modernidade.

Mas, Pode o subalterno falar? (Spivak, 2010). Os entrevistados, pertencentes à linha da subalternidade, falam e muito. Nessa pegada temos um novo trabalho que revela as mazelas e formas de resistência do comercio informal na capital baiana. Um trabalho que remete ao mundo dos escravos de ganho, no período colonial e chega ao sentimento poético de compositores como Edson Gomes, através da canção Camelô. A ordem do discurso contemporâneo, pós-moderno para alguns, oculta uma camada social subalterna mantida a partir do rechaçamento das leis do mercado do trabalho.

Apesar de estrangeiro, Orlando vai detalhando a evolução desse ambiente conforme o rigor científico da etnografia e preenche uma lacuna. Mas, por que será que a academia brasileira, especificamente a baiana, ignora o próprio umbigo e pouco se interessa em investigar um setor tão forte da economia, cujos baluartes seguem desprovidos de lastros de cidadania e assistência social?

Desde o inicio, o escravismo cuidou de desumanizar o homem, ao tratá-lo como mercadoria. O capitalismo moderno segue selvagem desumanizando o mercado de trabalho na manutenção da linha de subalternidade.

O olhar angolano sobre Salvador retrata o diferencial do que foi o olhar exótico do europeu até aqui sobre essa gente que resiste à desigualdade. E pela primeira vez o comércio de rua em Salvador é visto numa relação transatlântica sul-sul, que deve gerar outras relações de memória social nesta diáspora.

 Este texto foi publicado no jornal A Tarde, 4/5/2015





 

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