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DIÁSPORA AFRICANA NA AMÉRICA DO SUL POR IMAGENS*
Tavares. Julio Cesar de. Diásporas Africanas na América do Sul: uma ponte sobre o Atlântico. GARCIA, Januário (fotografia e concepção). Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão. 2008, 144 p.
Poucos são os momentos em que uma
publicação ilustrada oferece a possibilidade de leitura iconográfica, sobretudo
nos estudos acadêmicos. Um livro-catálogo, em quatro idiomas, resultou da
viagem do antropólogo Júlio César de
Souza Tavares e o fotógrafo Januário Garcia, em sete países da América do Sul (Brasil,
Argentina, Uruguai, Peru, Colômbia, Venezuela e Suriname) em busca de traços da
herança africana em comunidades afro-descendentes. A exposição fotográfica já
percorreu vários países do mundo e a publicação com imagens circula entre nós
muito sutilmente.
Personalidades do Movimento Negro
Brasileiro, os autores revelam a presença africana em países como Argentina e
Uruguai, onde desembarcaram milhares de africanos no porto do Rio da Prata.
Também registraram a presença africana no Peru, Colômbia e Venezuela.
Aventurar-se a conhecer o continente não é nada fácil, ainda mais se for em
busca de um grupo especifico. Com isso, somos agraciados com o registro das
faces africanas recriadas na America do Sul através dos elementos em comum de
reconstrução como a religiosidade, o uso dos tambores, a culinária, a língua, a
música, a dança, os ajuntamentos e a experiência social dos quilombos,
palenques e cimarrones.
Eis que Januário Garcia nos apresenta Diásporas Africanas na América do Sul: uma
ponte sobre o Atlântico em imagens, com texto de Julio Cesar Tavares. Em
princípio, um trabalho de grande reparação, porque pouca gente se dá conta da
população negra existente nos países vizinhos ao Brasil, com toda uma reminiscência
cultural, ainda que mínima, e que prova a história pós-colonial do continente
através da descendência daqueles que serviram ao cativeiro. Nesse sentido,
qualquer imagem pode servir como testemunha da história.
O trabalho expõe uma face pouco
conhecida ou lembrada dos sete países sul-americanos já mencionados com a
diversidade cultural de suas populações afro-descendentes. Gente que vive numa
relação diaspórica cheias de contradições e com muita resistência num universo
onde persistem os valores políticos e raciais de tradição europeia. Poucos são
os autores que tocam no assunto, ao omitir a presença do elemento de origem
africana em território sul-americano fora do Brasil. Na apresentação do livro, Tavares
diz ser “essa África recriada, nem sempre visível e em alguns momentos paca,
constitui hoje, força decisiva, na arquitetura pós-colonial de uma nova América
do Sul que crê na interculturalidade, no respeito à diversidade e na liberdade
plena dos povos que fizeram do continente sul-americano uma pujante força
emergente” (p.8). Na Argentina, por exemplo, o autor declara que “os efeitos da
invisibilização são sentidos até hoje e a própria discriminação é difícil de
ser identificada” (p.16).
Há uma carência de estudos e pesquisas
para a construção da nossa história a partir de elementos iconográficos. Na
civilização ocidental, percebe-se que esse tipo de discurso, quando se trata da
diáspora africana, não passa do plano do exotismo, visão básica do olhar
observador do estrangeiro viajante, ou seja, o turista. Além disso, parece rara
a abordagem sobre a utilidade da imagem como instrumento identitário,
testemunha ou auxiliar direto dos fatos históricos na diáspora. O mundo da
fotografia fascina sobretudo quem não está habituado a ler e interpretar o
mundo através da imagem. Apesar dos inúmeros trabalhos publicados na área,
ainda se faz ressentir a necessidade de estudos sistemáticos através da
iconografia. A cultura imagética ainda é pouco explorada no meio acadêmico como
objeto de estudo e fora dele, geralmente, não passa de hábito de colecionador.
Desde o nascimento, o ser humano cumpre
a sentença de exercer o aprendizado da política do estereótipo. É uma prática
que consiste em desenvolver uma postura de reação ao outro, através da
estigmatização, da intolerância e do preconceito. A ordem é ignorar a
identidade do outro, anular a sua história e lhe propor uma nova etiquetagem
para sua cultura. Em outras palavras, a política do estereótipo tem se
traduzido ao longo da história na invisibilidade das populações oprimidas.
Em tempos remotos, o hábito era guardar
cartões-postais recebidos de parentes e amigos que viajavam. E durou longo
tempo a mania de enviar, receber e colecionar postais como forma de lembranças
por imagem de um lugar. O postal foi um grande concorrente da fotografia como
forma de registro de paisagem. O advento da internet trouxe uma inovação para
difusão da imagem inclusive a distância sem mais a necessidade do formato restrito
para correspondência. Outra forma de registro documental deu a fotografia o
lugar de destaque que lhe cabe para cumprir a função de objeto iconográfico. É
com este propósito que dedico esta breve análise do trabalho realizado pelo
fotógrafo Januário Garcia, supostamente de caráter pioneiro sobre a diáspora
africana. Até o momento, não tenho notícia de alguém que tenha saído a
documentar comunidades remanescentes das populações africanas escravizadas nos
países aqui contextualizados.
Sair em busca de reminiscência e reunir
através de imagens símbolos da africanidade dá um alento ao que já está quase
fora do alcance da memória e da oralidade, apenas no plano da suposição. O
garimpo de grupos e populações representantes de novas políticas de identidade
faz sentir o vácuo deixado pela historiografia na tentativa de manter a
política do estereótipo do perfil europeu, além de omitir a contribuição
cultural e econômica durante a colonização. Ao folhear as páginas do livro de
Garcia e Tavares, fica a impressão de que algo precioso deixou de ser revelado
sobre os povos sul-americanos, em algum lugar do passado.
Todos os atuais países da América do Sul
têm na sua história as marcas de populações africanas utilizadas como mão de
obra escrava durante o período colonial. Uns mais, outros menos, entretanto, a
indiferença das classes políticas dominantes não conseguiu apagar os rastros do
passado, como tem sido de hábito na modernidade. O período colonial tinha como
testemunha iconográfica primária a gravura e a pintura dos viajantes. Possivelmente
muito mais um capricho do homem em reproduzir paisagens, objetos, personagens
ou fatos do que pelo compromisso de ordem histórica. No caso da população
afro-colombiana, de origem basicamente de grupos bantu, seu patrimônio foi
resultado de duras negociações perante as pressões coloniais. Ainda assim, não se tem notícia dos primeiros
registros de artistas da imagem com a chegada dos ibéricos num momento em que a
pintura era o que havia de mais nobre como expressão iconográfica.
Entre outras funções, a fotografia marca
o passado, aproxima distâncias e o desconhecido e mantém viva a memória de um
tempo, também não vivido. A imagem fala por si e além das palavras, tendo em
vista a sua autonomia performática. Assim, a imagem pode oferecer muitos outros
recursos de leitura, independente do momento em que foi registrada. Como
elemento etnográfico, a fotografia atrai para si uma relação dialética de
leitura seja a partir do autor, seja a partir de quem aprecia a imagem como
curioso ou estudioso do assunto. Da condição de documento à obra de arte, a
fotografia marca o registro histórico de um contexto sociocultural. Isso se dá
graças ao olhar do fotógrafo e a perspectiva do objeto fotografado, resultando
em situações dignas de leituras, estudos e valor afetivo documental. É assim
que se traduz o trabalho fotográfico de Januário Garcia nesse breve passeio
pela América do Sul radiografada como diáspora africana.
A preocupação em registrar a imagem contemporânea
da população negra dos países vizinhos, sem dúvida contribui para revelar uma
face escondida há séculos, já que não há documentos do gênero através de imagem
ao longo da sua história. A característica básica da colonização era a promoção
da ideologia dominante, aliada à efetiva marginalização da cultura indígena
(nativa), e também uma resistência negra, gerando uma diáspora onde os costumes
se desenvolveram através de uma dinâmica cultural, com a preservação de seus
respectivos valores, ou perda significativa dos mesmos. Parece ser de grande
escassez a existência desse tipo de material imagético que sirva de testemunha
dos mais de 350 anos de colonização da América do Sul a partir do contexto das
populações de origem africana. O trabalho de Garcia desponta como uma novidade
na área e a qualidade estética dispensa comentários.
Diante da imagem do outro, a classe
dominante colonial tinha a população escrava na condição de objeto gerador de
riquezas, não importava quem eram aquelas pessoas. O testemunho de Garcia expõe
o olhar da desconstrução de uma invisibilidade secular e uma reparação orgânica
de grupos estigmatizados pela política do estereótipo. Manter uma população
invisível é simplesmente negar sua existência, é gerar a experiência da
ignorância e do preconceito sobre seres sociais viventes no submundo da
modernidade. Ainda que não seja em condições dignas dos nossos dias, as imagens
de Garcia vão na contramão da visibilidade ao que histórica e socialmente foi
mantido na forma de apagamento, com o propósito de fornecer subsídios a uma
leitura crítica imediata.
A América do Sul aqui se apresenta pelo
discurso de suas imagens. Tendo em vista o aspecto da exclusão histórica, um elemento
comum enfrentado pelas comunidades colonizadas, fica evidente a falta de
informação e conhecimento, não obstante a construção de uma identidade pós-colonial
em território tão supostamente unificado, mas tremendamente dividido com uma
população tão próxima, mas afastada pelas políticas coloniais. A imperativa
dificuldade em ter acesso à história da sua cultura, ou mesmo em tomar a
iniciativa de construir sua própria história, pode ter sido uma das motivações
de Januário Garcia em desbravar o espaço negro sul-americano.
Não é difícil perceber a ausência de um
discurso sobre a presença das comunidades africanas na formação do território
sul-americano. Países como Argentina, Uruguai e Chile adotaram uma política de
formação a partir das culturas européias. A descoberta de Garcia e Tavares
parece revelar um privilégio de outros grupos na sua formação cultural em
detrimento das nativas populações indígenas e os africanos escravizados e
dispersados. Januário Garcia lança um olhar ancestral e privilegiado sobre
personagens que vêm contribuir para a realização de novos estudos da diáspora
africana.
Há mais de 30 anos no mundo da
fotografia, Januário acumula experiências no cinema, no jornalismo, na
publicidade, na arte e nos movimentos sociais. Imagens da população negra
brasileira são notórias por suas lentes. Seu ingresso no Movimento Negro trouxe
grande contribuição na luta pela igualdade racial através da documentação
fotográfica. O fotógrafo afirma que seu registro é também antropológico, por
trabalhar a imagem no sentido da reconstrução da dignidade, do desenvolvimento
da auto-estima em contraposição ao racismo como ideologia de dominação social.
Ao construir a memória fotográfica do
seu tempo, Januário Garcia tem clicado o cotidiano social dos negros
brasileiros e não por acaso acabou vencedor do Prêmio de Cultura, categoria
Registro e Memória, do governo do Rio de Janeiro, em 2011, decretado pelas
Nações Unidas como Ano Internacional dos Afro-descendentes. Certamente, a
premiação veio coroar a investida do fotógrafo

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