A VOLTA DO CABOCLO E DA CABOCLA
Quem ainda não
foi deve desencantar e acompanhar o cortejo da volta do caboclo e da cabocla,
símbolos da festa do 2 de julho. Início da noite. Breve concentração no Campo Grande,
a orquestra do maestro Reginaldo aquece o som, enquanto os puxadores preparam
os carros alegóricos. O ritmo convida
casais a dançar e preparar o coração para o trajeto. De repente, uma salva de
fogos anuncia a partida e a charanga sai na frente tocando frevo, atraindo a
atenção de todos no entorno. Os dois carros puxados por um grupo de homens padronizados
saem em seguida perante olhares de admiração e fé. A velocidade é uma só para
quem tem fôlego e não quer perder a viagem.
Transito interrompido
nos cruzamentos, vendedores e fregueses se abancam nas portas das lojas,
moradores se debruçam nas janelas dos prédios pra ver o par de imagens passar
sob aplausos e ovações numa velocidade rítmica que poucos se sujeitam a
acompanhar. O repertório da banda mantém o entusiasmo de quem vai ao som das
marchinhas originais ou adaptadas pela avenida afora. Quem nunca foi, vá,
porque a experiência vale a pena.
A manifestação é popular, espontânea, vai quem quer, não precisa ninguém organizar. Gente de todas as cores, idades, categoria profissional, tipo físico, a dançar, cantar ou so a caminhar, compunha o quadro do cortejo em sentido único, sem chance de perder o entusiasmo e o interesse pela diversão. O negócio é estar no meio pra sentir e entender a razão do movimento, da alegria de levar os caboclos de volta.
Na passagem por
vários pontos, são inúmeras câmeras fotográficas e celulares, todo mundo
querendo registrar e guardar aquele momento único. Embora se repita todo ano, mas é único pois
no ano seguinte terá alguma diferença e pra algumas pessoas que são de fora
pode ser algo que acontece uma vez na vida.
E lá vão os caboclos descendo a avenida com a mesma pose que subiram
agora cheios de pedidos e oferendas recebidos durante o período de estadia no
Campo Grande e gritos de guerra por parte dos acompanhantes.
São raros os
momentos que se tem de ocupar a via pública que no dia a dia só os carros
podem. E lá se vão todos transpirando alegria, devoção e sentimento de poder. O
trajeto é significativo a partir do centro histórico entre descidas e subidas,
paradas estratégicas e rápidas homenagens no largo do Pelourinho e na rua Direta do santo Antonio. A multidão acompanha atenta ao ritmo de varra-varre
vassourinha da charanga, dentre outras
melodias. Vendedores de água e cerveja
integram o cortejo ajudando na animação pra garantir uma ponta de ganho também.
Nada de politicagem, só a população em sua própria ordem. E lá vai. Desce o Boqueirão,
entra no Barbalho, desce e sobe, desce novamente pra subir a ladeira da Soledade.
Uma nuvem passageira refresca a chegada, ninguém arreda pé e os caboclos chegam
à reta final.
O largo da
Lapinha está devidamente preparado para receber seus moradores permanentes. O
cenário de barracas de bebidas, mesas e cadeiras no calçadão celebra a volta
dos caboclos. E lá vem, lá vem, prepara para entrar no panteão. Em fração de
segundos, os carros repletos de frutas e pedidos entram sob uma chuva de milho
branco, aplausos e gritos de “xetro maromba xetro”. Pronto, eles voltaram e
todos se soltam no samba e na bebida enquanto aguentarem a farra.
MR
Julho/19


Comentários
Postar um comentário